Consertar é o novo comprar

Em crise econômica, País vê compras de produtos novos despencarem. Ponto para os “reformadores”

Em tempos de crise, economizar é obrigação. E a saída encontrada por muitos é deixar o cartão em casa para comprar produtos no­vos apenas em casos essenciais. Prova disso é que as vendas do comércio varejista registraram a maior queda dos últimos 14 anos em 2015: 4,3%. O setor de serviços também viu o faturamento encolher (-3,6%). Mas, como diz o ditado popular, não há mal que não traga um bem. Quem trabalha com reformas e consertos sabe bem disso. Afinal, para fugir dos preços altos, os brasileiros voltaram a investir no reparo do que já têm em casa.

“Há bem pouco tempo, se alguma coisa quebrava, as pessoas jogavam logo no lixo para comprar um novo. Hoje, não. Com a crise, muita gente está partindo para o conserto, que é uma alternativa mais barata”, disse o sapateiro Marcos Pereira, que trabalha há 20 anos no Mercado de Casa Amarela e diz não ter perdido clientes para a recessão econômica. “A crise não chegou aqui. Os clientes têm até aumentado”, revela. “Se eu pudesse atender todo mundo, seriam uns cinco ou seis por dia. Antes, era a metade disso”, completou o encanador Milton Santiago, que disse nunca ter visto o mercado de reparos tão aquecido.

A animação de Marcos e Milton reflete o que a consultoria Nox4Think já havia constatado: diante da recessão, 93% dos brasileiros têm selecionado melhor os gastos e 60% têm até mudado os hábitos de consumo. “As pessoas estão endividadas ou com medo de se endividar e isso influencia muito a decisão da compra. Por isso, elas preferem manter o que já têm em casa, através do conserto”, comentou a economista Amanda Aires.

A maior procura é no setor dos eletroeletrônicos. Afinal, por aqui, os custos são mais elevados. Na Logus Informática, que fica na Zona Norte do Recife, por exemplo, o movimentou dobrou nos últimos quatro meses. “Os aparelhos têm peças importadas e subiram muito de preço por causa da variação cambial. Por isso, não está valendo a pena comprar um novo. O custo-benefício do conserto é melhor”, argumentou a proprietária da loja, Daise Barreto. Ela contou que o conserto de um notebook chega a custar apenas 5% do valor de um novo. Nas impressoras, o serviço representa 20% do preço original; e nos computadores vai de 10% a 30%. “As pessoas estão pesquisando mais. Comparam o orçamento com o valor de um novo e veem que a diferença é grande, então preferem consertar”, disse Daise.

Foi exatamente por esse motivo que o estudante Rodrigo Lira, de 21 anos, optou pelo reparo do computador. “A minha primeira opção seria comprar um novo, mas resolvi pesquisar e percebi que o meu computador aumentou R$ 1 mil em um ano e meio. Já o conserto custou menos de 25% desse valor”, revelou ao lado da mãe Djanira Lira, 54, que também tem apostado nos reparos. Só no ano passado, consertou dois aparelhos de seu restaurante. “O freezer ficou novinho com o conserto, por um preço bem menor que o de um novo. Paguei R$ 300, ao invés de R$ 2 mil. Com a masseira (máquina de fazer massa), a economia foi ainda maior. O conserto foi R$ 250. Uma nova sairia por R$ 3 mil”, celebrou.

Bruno Campos/Folha de Pernambuco

Eduardo e Valdemar: dez clientes novos por semana

Usado com cara de novo é saída na crise

Na busca por preços mais baixos, customizar o que já se tem em casa é uma boa pedida. E as mudanças não ficam apenas nas roupas, que podem se transformar em peças novas com a ajuda de uma costureira. Também há quem reforme móveis, brinquedos, acessórios e até carrinhos de bebê, muitas vezes pela metade dos originais.

Grávida, Priscila Raposo testou todos esses artifícios para preparar um enxoval sem gastar muito. Só no carrinho e no bebê-conforto, poupou R$ 800. Ao invés de comprar, ela trocou o estofado das peças usadas pela sobrinha. Deixou tudo na cor que queria e ainda reaproveitou o que estava parado em casa. “Foi uma ótima saída. Ninguém diz que é usado”, contou. Quem agradece a economia é o dono da Service Baby, em Piedade, que está recebendo cerca de dez clientes por semana. “Antes de o orçamento apertar, as pessoas não tinham o costume de pesquisar maneiras para adiar as compras”, disse Eduardo Medeiros, que trabalha com seu irmão, Valdemar.

“A crise está incentivando as pessoas a reformarem o que têm em casa. Com isso, nosso movimento deu um salto de 40% desde dezembro”, concordou Paulo Caldas, dono da Linha e Bainha. A loja reforma roupas em Setúbal e, além dos tradicionais ajustes, realiza customizações. A empresária Íris Cinha, por exemplo, cortou uma calça para virar bermuda e transformou um vestido em saia. “É vantagem porque você fica com peças novas aproveitando o que tem em casa”, explicou.

(Fonte: FolhaPE)

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